Bons samaritanos ou cínicos? Há beleza de espírito e talvez uma simples exploração em uma reportagem da revista americana Surfing. Entre páginas e páginas de anúncios com surfistas ricos sorrindo, bundas e todo tipo dos caríssimos acessórios e equipamentos, há uma surf trip diferente: as ondas perfeitas do lugar mais miserável do planeta (último lugar no índice de qualidade de vida medido pela ONU). A Líberia sofreu com uma gerra civil interminável entre 1989 e 2003 que exterminou 250 mil pessoas. Hoje o país é um amontoado de lixo, "banheiros naturais" como algumas praias, pouquíssima comida e condições mínimas de vida e milhares de mutilados da guerra. Mesmo assim há alegria e pureza nas crianças que descobrem o surf graças aos americanos com grana que conseguem ir pra lá usufruir de esquerdas magníficas.
Um convite às crianças armadas que garantiam a segurança da expedição dos americanos em uma praia é emblemática. "De repente tivemos uma idéia. 'Vocês querem tentar?'", Dan perguntou a um garoto chamado Mustafá... Observando as crianças surfando, eu lembrei algo que Dorothy (freira que cuida como guerreira de um orfanato na Libéria) disse antes no orfanato. "Vocês que chegam e vão, vocês que interagem e compartilham com as pessoas e vêem a verdade, serão vocês e muitos outros como vocês que farão um mundo melhor".
O Dan no caso é Dan Malloy, o famoso ex-pró e videomaker de sucesso. Ora, que mundo melhor esses surfistas americanos poderão dar às crianças da Libéria? Uma session inesquecível de surf? Um sonho raro numa vida infernal?
De onde vêm as armas que destroem o mundo em inúmeras guerras? Por que a África e sua falta de riquezas naturais (como petróleo) é um mundo esquecido e ignorado pelo governo mais poderoso e rico do mundo?
Claro que não se trata de comparar a boa praça Malloy e sua trupe com a corja assasina predadora do governo americano. Mas espero que a Libéria não seja apenas mais um pico exótico de ondas perfeitas que ajudará Malloy a ficar um pouquinho mais rico em seu próximo filme. Espero que a Libéria não seja mostrada apenas com imagens de suas ondas de desenho animado e crianças sorrindo em cima de pranchas como mostrou a reportagem da Surfing. Por que não há nenhuma foto da miséria e desumanidade dessa África esquecida na revista?
Porque o surf é cínico e alienado. Só se interessa pela beleza e prazer. Porque os humanos miseráveis ─ que recebem a graça e bondade de um gringo que lhes concede o privilégio de surfar ─ são apenas figuras exóticas.
Porque a maioria do mundo que tem condições econômicas e políticas não está nem aí para essas pessoas que sobrevivem quase como bichos. O mundo com poder só interessa por riquezas, sejam elas poços de petróleo ou ondas perfeitas.
O que devia nos fazer regressar a uma onda clássica não deveriam ser apenas as paredes de tubos de sonho. Deveriam ser os seres humanos. As pessoas que ficaram lá. As pessoas que não sairão de lá jamais, porque não podem.
Claro que há exceções, como os americanos que melhoraram as condições das comunidades de Grajagan e das Mentawai, por exemplo. Como pessoal que apóia o projeto de surf da favela, no Arpoador, Rio. Como alguns donos de escolinhas de surf no Guarujá que dão chances às crianças carentes.
Mas são exceções, não a regra. Há pouco tempo, ao entrevistar um carroceiro para um texto sobre trabalhadores das ruas, ele perguntou o que ele ia ganhar com isso. Nada em se tratando do dinheiro que eu receberia pelo artigo. Sim, eu contaria sua história triste, alertaria a sociedade... mas aquele carroceiro permaneceria em sua miséria eterna. Me senti apenas mais um explorador da miséria ao lado.
O que ganham os liberianos com esse texto na Surfing? Um belo momento de felicidade mas eles que tratem de tentar prosseguir com o surf. E depois? Bonito será se Malloy voltar ou estabelecer por lá um projeto ligado ao surf junto do orfanato da missionária Dorothy. Triste será se o resultado for apenas um ganho em vendas de uma revista poderosa e de mais um filme de um videomaker bem-sucedido.
O surf poderia ser muito mais do que carregam os surfistas privilegiados em viajar o mundo atrás de ondas perfeitas. Poderia se os surfistas olhassem além das ondas.
A vida não é transparente e cristalina como as ondas de azuis e verdes surreais dos paraísos do surf.
Paraísos só do surf.
A beleza e o cinismo do surf
Campanha premiada
Google Earth Challenge


Taylor Steele: Um ano, cinco filmes
Você poderia pensar que trocar o maior centro da indústria de surfwear do mundo, no sul da Califórnia, pela ilha de Bali, Indonésia, fosse afastar o mais conhecido videomaker do surf dos holofotes. Mas mesmo após quase duas décadas de carreira, Taylor Steele continua mais relevante do que nunca.
Just Add Water
"Just Add Water" tem como protagonista o jovem surfista havaiano Clay Marzo, que apesar dos apenas 19 anos, já é bastante conhecido no mundo do surfe. Graças a filmes como os da trilogia Young Guys e Tomorrow Today da revista norte americana Transwold. O filme relata um pouco da história de Clay através de depoimentos de seus pais e amigos, como Dane Reynolds, Kelly Slater e Andy Irons contando um pouco da sua personalidade e do seu surfe.
Havaianos incitam localismo
Aparentemente não contentes em aterrorizar apenas as areias do North Shore com sua truculência covarde, alguns locais havaianos tentam agora disseminar sua mentalidade preconceituosa e violenta ao redor do mundo. Há algumas semanas circula na web um vídeo em que um local havaiano ─ que mais parece um halterofilista do que surfista ─ pede aos locais taitianos, em uma carta assinada pelos "fundadores da Da Hui", que pressionem a ASP para proibir a inclusão de wildcards "estrangeiros" no evento de Teahupoo ─ além de criticar uma das marcas que mais ajudou a comunidade taitiana nos últimos anos com o evento WCT, a Billabong. "Vocês deveriam exigir a inclusão de 16 locais no evento, assim como fazemos aqui no Hawaii. Ou vocês vão se ajoelhar para a Billabong e a ASP e deixar que eles ditem quem participa do evento?", diz o brutamontes. "Fiquem espertos, eles são porcos idiotas sedentos por dinheiro que vão abusar da sua hospitalidade." E as baboseiras não param por aí: "O WQS é uma porcaria", "os Top 45 têm medo de Teahupoo" e "polinésios têm que estufar o peito e se unir contra os estrangeiros" foram algumas das frases proferidas pelo "bombadinho" no Youtube. Essa "carta aos taitianos" evidencia que é hora dos Top 45 e da ASP tomarem uma atitude em relação a situação das competições no Hawaii. Pois o que era uma exceção apenas para o North Shore, pode virar uma reivindicação de outros locais se a propaganda xenofóbica e propagar.
Confira o video.
A arte que protege
O QUE VOCÊ FAZ COM SUAS PRANCHAS VELHAS OU QUEBRADAS, QUANDO ELAS NÃO TÊM MAIS CONSERTO? A ARTISTA PLÁSTICA PARANAENSE MARA MORAES ACHOU UMA BOA SOLUÇÃO PARA O PROBLEMA: RECICLÁ-LAS E TRANSFORMÁ-LAS EM ARTE. O RESULTADO SÃO ESCULTURAS, TROFÉUS E OUTROS TRABALHOS, DIMINUINDO ASSIM O IMPACTO AMBIENTAL QUE SERIA CAUSADO POR ESTES MATERIAIS.
01. Conte como surgiu a idéia de reciclar as pranchas de surf?
Iniciei fazendo miniaturas de animais marinhos, pranchinhas e outros objetos, usando as bordas das pranchas que eu apanhava no lixo de uma fábrica perto de minha casa. Um dia, ganhei um pedaço maior de bloco e fiz a primeira escultura grande, uma carranca africana. Depois disso fui contratada pelo surfista Paulo Borges para confeccionar 36 troféus para o I Surf Treino da Comunidade de Matinhos, no Paraná, que ele estava organizando. Depois disso não parei mais.
02. Como você consegue as pranchas? Os surfistas levam até você? Eles já conhecem o seu trabalho?
Pelo fato de eu morar em um município litorâneo pequeno, as notícias espalham-se rapidamente. Hoje sou convidada para expor meu trabalho em campeonatos de surf, skate e eventos públicos municipais e estaduais. Os atletas me procuram e entregam seus "foguetes" felizes da vida, pois sabem que sua paixão terá vida novamente.
03. Conte como é feito seu trabalho passo-a-passo.
A prancha é descascada para retirar a resina e depois as laterias são serradas. Após isso, lixo as placas que sobram. Os desenhos são feitos primeiramente no papel e posteriormente no bloco. O entalhe é executado com lixa d'água para dar a forma e depois dimensiono a peça com um lápis 6-B. Para pintar utilizo pincel e tinta acrílica a base d'água. Por último vem o mais importante da escultura: o nome e o seu significado místico. Detalhe: não sabia desenhar, pintar e nem esculpir. Um dia acordei fazendo isso e não parei mais.
04. De onde vem sua inspiração para produzir seus trabalhos?
Preciso estar sempre em harmonia comigo, com a natureza e, claro, assistindo um bom surf, o que não falta por aqui. Através de muita pesquisa que faço acabo sonhando com a escultura, seu nome ou significado. Inspiração não falta nunca, creio que pela atitude de reciclar.
05. Você faz algum outro tipo de trabalho relacionado com meio ambiente?
Procuro conscientizar as pessoas sobre a preservação do meio ambiente através de matérias de jornais do litoral paranaense, assim como nos sites ligados ao surf. Ando sempre pela praia à procura de fatos e transfiro para fotos ou textos, o que me chama atenção. Faço a minha parte tanto na teoria quanto na prática.
Aniversariante do dia
Dizem que a mudança é uma constante no surf. E basta olhar para trás que comprovaremos que nossa tribo mudou, evoluiu. Se formos comparar os dias de hoje com 20 anos atrás, veremos que muita coisa está diferente: pranchas e, principalmente, a forma como surfamos as ondas. Os sonhos são outros e hoje a nossa busca vai muito mais além. Com o mundo globalizado, o surf chegou aos quatro cantos do planeta.
Mas essas mudanças não acontecem à toa. Elas são uma evolução do que já foi o nosso esporte. Por isso, o meu conhecimento nada seria sem a história dos últimos 20 anos.
E se por um lado a mudança faz parte do esporte, sua essência é a mesma. A alegria no rosto de um menino ao acelerar na sua primeira onda, é a mesma que sente Kelly Slater em mais um tubo em Pipeline. O desejo do coroa em dropar a onda do dia é o mesmo de Maya Gabeira em descer mais uma onda gigante. Em qualquer lugar, sendo amador ou profissional, o espírito não mudou.
Esse é o meu compromisso com as pessoas que me acompanham e pensam sobre meus textos. Evoluir e se renovar com o esporte, sem nunca perder o feeling que nos faz deslizar até a beira da praia toda vez que o mar estiver bom, ou até mesmo ruim.
Dia Mundial dos Oceanos
WCT Brasil adota novo formato
Como analisar a previsão de ondas
01. ONDE PROCURAR AS INFORMAÇÕES
A conclusão final será mais precisa se você checar diferentes fontes. É importantíssimo saber a intensidade e direção dos ventos e o período da ondulação para saber quantos dias vai durar o swell. Os mapas de previsão mostram tudo isso, mas é preciso prática para interpretá-los. Eles mostram a direção, o tamanho da ondulação e a que distância ela está da costa. Geralmente os sites também oferecem gráficos e até textos com essas informações já interpretadas, mas os mapas mostram a movimentação e a evolução exata das condições. Às vezes o swell vem da Argentina, chega batendo no Sul do Brasil, sobe para o Sudeste e vai até o Nordeste, sempre sofrendo mutações. Depois, existem fatores bem mais específicos, que são as condições climáticas, massas de ar quente que impedem o swell de chegar à costa, etc. Outro detalhe é saber se existem outras ondulações se chocando com a ondulação primária, pois isso interfere no resultado final do swell na praia. Para exemplificar, um swell de sudoeste (com vento noroeste) é perfeito para Itacoatiara, mas se existir alguma influência de sul no meio do caminho o swell tende a girar e já não chega tão bom àquela praia, mas pode ficar bom em outra.
Joaquina histórico
História de Eddie Aikau
Toda arte de Andrew Kidman
10 perguntas para... Claudia Gonçalves
Bela e extrovertida, ela surgiu ainda adolescente no surfe competitivo brasileiro, no Guarujá do início dos anos 2000. Poderia ter sido mais uma daquelas beldades precoces e efêmeras. Não foi. Claudinha tinha surfe no pé, como sua calma e graciosidade que desenvolveria nos tubos, e vontade de evoluir. Por isso buscou o mundo das ondas mais perfeitas. Por isso teve apoio de uma grande empresa para rodar esse mundo, como atleta e modelo. Por outro lado, ela sempre teve consciência de como é duro, no narcisista negócio do surfe, não ter nascido com os seus traços delicados, pele alva e cabelos loiros. A aquariana Claudia Gonçalves, 23 anos, quer um surfe feminino brasileiro melhor não só pra ela, mas também pras Titas, Silvanas e outros talentos. Fora d´água ela luta para difundir mais o surfe das meninas como editora da revista virtual Ehlas e futura jornalista, quem sabe, da TV. Direto do Hawaii ela fez um balanço de sua vida e sonhos.
01. Quando surgiu o convite para entrar na equipe da Oakley? Como é seu trabalho na empresa como surfista e modelo?
Faço parte da equipe Oakley há quase dez anos, e sou atleta exclusiva deles desde os 18 anos. Eles sempre me apoiaram desde o início da minha carreira. Meus objetivos principais sempre foram os pódios, títulos e bons resultados como surfista. Mas também sei que sempre foi muito importante a imagem que criei, vinculada ao meu talento. Sei que um surfista completo não é feito só dentro da água, mas fora também. Procuro aprimorar os dois lados: treino bastante para melhorar a qualidade do meu surfe, mas também dou muito valor aos estudos e a minha imagem como profissional.
02. Mesmo tendo um bom patrocínio, você manifesta indignação com a situação das surfistas brasileiras que não têm rosto e corpinho de modelo e sofreram com a falta de apoio e patrocínio. Esse foi o caso da Tita Tavares, por exemplo. Como vê a situação hoje, o problema ainda acontece?
Sempre demonstrei minha indignação com a falta de apoio para os talentos brasileiros, principalmente no surfe feminino. Mas reconheço também que há um despreparo dos atletas e dos investidores em diversos aspectos. Sei que não deve ser nada fácil uma pessoa surgir do nada, de uma comunidade carente, e virar ídolo nacional; não dá para exigir muita coisa de uma pessoa em uma situação dessa. Mas vejo muito poucos patrocinadores-investidores que se preocupam em fortalecer aspectos básicos da formação dessas jovens promessas.
No exterior, em primeiro lugar os patrocinadores apóiam os estudos. Os surfistas geralmente começam a correr o tour após terminarem o 2º grau completo. Eles costumam combinar a escola com viagens para aprimorar o surfe em ondas boas e pesadas. Desde crianças têm um suporte completo, desde correr os campeonatos mais importantes até fazer viagens dos sonhos, sem contar com os investimentos nas áreas de saúde, nutrição, condicionamento físico, equipamentos, viagens etc. Depois as pessoas perguntam o que falta para um brasileiro ser campeão mundial (do WCT). A minha resposta está aí!
03. Como sua carreira evoluiu? Como andam seus planos hoje, sonha com o WCT ou quer dedicar-se mais ao freesurf?
Fiz bons resultados no Brasil como amadora, fui bicampeã colegial, campeã paulista e também campeã brasileira. Mas senti que eu deveria expandir os meus horizontes, crescer e amadurecer de acordo com as oportunidades que foram surgindo. Tive a oportunidade de surfar ondas incríveis nas Maldivas, Tahiti, Indonésia, Fiji, Hawaii, Austrália, entre outros lugares... Mas apesar do sentimento único de surfar ondas tão perfeitas, sinto uma energia inexplicável quando entro em uma bateria, acho que está no meu sangue. Sem dúvida alguma ainda sonho com o WCT. Confesso que por um momento desencanei um pouco das competições, quis explorar um pouco mais os estudos (está no 3º ano de jornalismo na Unaerp, Guarujá) e as viagens, que sem eu perceber acabaram se tornando as minhas prioridades. Mas resolvi me focar no WQS em 2009. Quero ser uma atleta da elite do surfe mundial em breve.
04. Você levou uma vida bem itinerante, já morou em Maceió, Guarujá, Floripa, Guarujá de novo. Onde está vivendo hoje e qual o lugar que mais amou morar?
Sempre tive o pé na estrada. Mas isso é de família, meu pai é piloto de avião e desde criança morei em diversos lugares por conta da profissão dele. Hoje ele brinca comigo dizendo que eu já tenho mais horas de vôo do que ele (risos). Curti muito cada momento que tive nos lugares que morei, mas confesso que o lugar mais alucinante que eu vivi foi Maceió, na praia do Francês. Morei dez anos nesse lugar, toda a minha infância vivi saudável e livre, andando de cavalo, subindo em pé de manga, coqueiro, cajueiro, jogando bola na rua e pegando onda todos os dias. Essas são as lembranças mais felizes de toda a minha vida. Quero manter um laço eterno com esse lugar. Hoje passo a maior parte do tempo no Guarujá, onde tenho família. Adoro viver lá, perto de São Paulo, das ondas (ela ama as Pitangueiras) e ainda conheço todo mundo desde criança, sem contar que meu namorado também é de lá.
05. Você e Adriano Mineirinho estão juntos há vários anos, coisa rara em jovens no mundo do surfe pró. Quando começaram a namorar e como explica esse relacionamento tão duradouro?
Começamos a namorar super cedo, ele tinha 17 e eu 19, mas já nos conhecíamos há bastante tempo e sempre fomos bem amigos. Tenho certeza que nosso relacionamento dá certo por levarmos a mesma vida, é muito mais fácil de um entender o outro. Temos amigos em comum, lugares, desejos, sonhos. Somos pessoas diferentes, mas com os mesmos objetivos. Isso nos faz caminhar juntos, fortalecendo ainda mais a nossa aliança a cada dia.
06. O que mais admira no Mineiro e o que aprendeu com ele, dentro e fora d´água?
O que eu mais admiro no Adriano é a sua vontade de crescer e evoluir a cada dia. Tudo o que ele faz é pensando nos objetivos como surfista profissional. O surfe está em primeiro lugar e ele sempre deixou isso bem claro pra mim. Eu sabia que se quisesse fazer parte da vida dele eu estaria sempre depois do surfe. Isso me fez crescer muito e pensar da mesma maneira; como uma surfista profissional em primeiro lugar e depois nas outras coisas, como no namorado (risos). Aprendi e continuo aprendendo muita coisa com a determinação e força de vontade do Adriano, ele me estimula e me incentiva a ser uma verdadeira surfista, de corpo e alma.
07. Você já afirmou na mídia que é uma profissional bem regrada, que não fuma, bebe ou se joga na noite. O surfe pró-brasileiro conhece algumas histórias de surfistas talentosos que se perderam na night e drogas e brecaram suas carreiras. Por outro lado, isso não acontece com as meninas do surfe brasileiro, que parecem mais comportadas e conscientes que os homens. O que os prós brasileiros têm a aprender com vocês?
Não acho que isso depende do sexo masculino ou feminino. Às vezes penso que os surfistas em geral precisam ser mais regrados, ter mais horários, responsabilidades, foco e etc. Por outro lado, sei que não é nada fácil administrar a carreira, os horários de treino no surfe, natação, malhação e viagens. Mas acredito que essa é a hora de ganharmos nosso espaço, mostrarmos a verdadeira essência do nosso esporte, que já mudou e vem mudando ainda mais a cada dia. Muito diferente dos anos 70, quando éramos marginalizados, taxados como vagabundos. Hoje somos esportistas, saudáveis e privilegiados de poder viver fazendo o que mais amamos e recebendo para isso, mesmo que seja uma quantia bem diferente a dos outros esportes no mundo. Mas o mais importante é que somos felizes por fazer o que amamos!
08. Sua arte de entubar é elogiada por sua leveza, estilo e calma dentro dos tubos. Como e onde desenvolveu essa técnica?
Bom, aprendi a surfar em um lugar muito tubular, o Leprosário, na praia do Francês (Maceió), por isso sempre fui acostumada com ondas rápidas. Mas também tive muitas temporadas de Fernando de Noronha antes de conhecer outros lugares do mundo. Tive oportunidade de me aprimorar primeiro nos tubos do que nas manobras.
09. Você consegue levar uma vida boa com o salário que ganha no surfe? E as outras meninas, o surfe pró-brasileiro já é uma bela profissão ou pensa que o dinheiro ainda é curto em sua modalidade?
São poucas as meninas que conseguem viver bem só do surfe no Brasil. Dou graças a Deus que eu consigo. Mas me esforcei muito para chegar onde estou. Nunca quis ser apenas uma surfista profissional, sempre sonhei em estudar e trabalhar, independentemente de ser surfista. Mas as coisas tomaram outro rumo na minha vida. Eu escolhi o surfe como profissão, mas isso não me impediu de terminar o 2º grau na escola, cursar uma faculdade e estudar inglês. Acho que esses aspectos contam muito na hora de arrumar um bom patrocínio, pois acredito que as empresas procuram sempre um exemplo quase perfeito de atleta, o típico "Kelly Slater"; qual patrocinador não queria tê-lo na sua equipe?
10. Fale um pouco do seu trabalho na revista virtual Ehlas? Tem outros sonhos de trabalho no jornalismo das ondas?
Posso dizer que a revista Ehlas foi a minha maior realização como jornalista e surfista profissional, pois consegui reunir as minhas duas maiores paixões. Como jornalista tem sido uma ótima experiência para colocar em prática tudo o que eu aprendi e continuo aprendendo na faculdade. Como surfista, sempre sonhei com uma revista que mostrasse a nossa verdadeira identidade, nosso dia-a-dia, conquistas, batalhas, nosso charme, beleza e irreverência! Quando me surgiu a idéia de fazer uma revista, falei com a minha amiga e surfista profissional, Brigitte Mayer, da minha vontade em fazer alguma coisa para a nossa modalidade. Sabia que ela era a pessoa certa. Essa parceria se transformou na única revista especializada em surfe feminino no país hoje, juntamente com nossos sócios, Rick Werneck, Roberta Borges e Monika Mayer. Vou mentir se disser que eu quero para por aí; no futuro tenho vontade de trabalhar com o jornalismo esportivo televisivo, quero apresentar programas de esportes radicais, melhor ainda se for o surfe. Estou estudando para tentar unir a minha experiência como surfista com a faculdade de jornalismo, para fazer um trabalho completo! Mas o WCT está em primeiro plano.
Felipe Braz

Desde os nove anos Felipe se arrisca na praia da Macumba, já foi bodyboarder, mas encontrou a felicidade quando subiu numa prancha a pedido dos amigos. Hoje, com 17 anos, mostra que o que deseja é surfar. Mesmo com seu jeitinho tímido de ser, vem conquistando seu espaço. Já foi Campeão Brasileiro Iniciante Amador e também Campeão Carioca Mirim.
Pretende logo se tornar surfista profissional, para isso tem treinado bastante. Se não tivesse caído de cabeça no surf, talvez hoje o carioca estaria com outros planos: prestar vestibular para Direito. Mas como os tubos, as manobras e os aéreos cruzaram seu caminho, a história com certeza terá outro desfecho.
A vida!
Billabong Pro Tahiti
Jolly Vague
Bem-vindos a Faixa de Gaza

E a coisa nesse ano começou da pior maneira possível. Essa semana a porradaria quase comeu lá na Guarda do Embaú. Também já tinha ouvido comentários de um conflito entre pescadores e surfistas no feriado de 1º de maio na praia Central de Garopaba, quando cerca de 100 surfistas foram impedidos de cair na água por pescadores. Policiais foram chamados para intermediar a situação. E isso que a temporada da pesca da Tainha ainda não tinha começado...
Independente de portarias, determinações, resoluções, a verdade é que nunca se produziu um estudo cientifico detalhado que comprove que os surfistas espantem os cardumes. Na instrução normativa que trata da pesca da tainha, do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama), não há qualquer proibição à prática do esporte durante a safra do pescado.
Cabe agora discernimento e bom senso entre pescadores e surfistas para evitar novos confrontos. O sistema de bandeiras foi funcional nos últimos anos e deve voltar a partir do dia 15. É simples: o mar subiu, o surfe está liberado. As ondas estão pequenas, barcos na água.
Agora, proibir o surfe quando também não se pode pescar, aí já é demais. Isso é uma ignorância total.
Se liga!
Desde que comecei a surfar, sempre achei que o maior benefício que o surf pode proporcionar é a curtição do espírito de camaradagem, ou como dizem no Hawaii, espírito de Aloha. É como se você comemorasse o fato de ter conquistado um desafio, no caso, chegar no outside, e ter o prazer de compartilhar isso com alguém com uma visão de mundo igual a sua.
Isso é um fato incontestável: a grande conquista do outside é uma emoção comum a todos no mundo do surf.
E mesmo com inúmeras transformações ao longo dos tempos e gerações, com equipamentos, mares e limite diferentes, o que fica é aquela sensação única de euforia que se tem ao surfar uma onda nova.
Imagine o que seria dessa experiência se você não tivesse com quem dividir essa emoção, ou ao menos pudesse contar para alguém, mesmo que passasse por mentiroso. É aí que reside grande parte do espírito de Aloha: a confraternização entre os surfistas, que, mesmo com origens e culturas diferentes, sempre se entenderam bem ao longo dos anos.
O surf é um prazer universal, assim como a música, o sexo, a arte, ou umas boas risadas com os amigos. Todo mundo entende e se emociona sem precisar de legendas ou traduções. Não fosse isso, nosso esporte não estaria tão difundido pelos quatro cantos do planeta. Surf é surf, em qualquer lugar que você esteja, aquela emoção de se divertir e compartilhar uma conquista vai estar lá.
Infelizmente hoje estamos muito longe dessa antiga realidade. Tudo está acontecendo tão rápido que quase não acompanhamos mais a evolução do esporte. Chegou a hora de pagar o preço. O crowd está aumentando, chegando a um ponto irreversível!
Onde vamos parar? Acho que esta é a grande preocupação do mundo, pois ele está ficando cada vez menor. Os picos estão mais escassos e as ondas mais disputadas e com isso, lá se vão a paz e a curtição entre amigos.
Qual outro motivo, se não o egoísmo, para um surfista local botar um “haole” pra corre? Se pensarmos na relação prática entre muita gente para pouca onda, até daria para entender. Mas não, esta disputa envolve coisas maiores, como o próprio meio ambiente.
Tem gente que, para surfar, é capaz de derrubar matas virgens e construir pousadas, campings e tudo mais, formando bairros e depois cidades em volta dos picos famosos. Basta olhar para Jeffrey’s Bay e ver o que ela era no começo de sua história e o que virou 20 anos depois. Tudo em nome do prazer de surfar uma onda maravilhosa. Causa nobre, mas será que o preço pago não foi alto demais?
Tive a oportunidade de ver de perto a reação das pessoas ao assédio de suas praia. São pessoas furiosas que não admitem que seus picos sejam invadidos. Eles sentem-se donos das ondas e do prazer de surfá-las, como se isso fosse um direito exclusivo de poucos felizardos. Se fosse assim, jamais iríamos evoluir. E o mundo precisa evoluir, de preferência mais rápido que todas essas mudanças, para termos a chance de entender tanta confusão.
Não dá para imaginar que, só porque você tem a sorte de morar em um lugar com boas ondas, elas serão somente suas.
Acho que nosso único caminho a seguir é a preservação! Mas preservar o quê? Chegou a hora de preservar o bom senso, os picos e a educação, que dosada em grandes escalas, pode garantir praias limpas, camaradagem e muito espírito Aloha.
Todos temos aquela inevitável atração pelo surf, mais uma razão pela qual devemos desenvolver uma boa relação com ele. Se passarmos para dentro d’água todos os problemas do mundo em terra firme, vamos acabar tomando vários “caldos” da vida. O sossego e a paz interior do surf irão embora, tornando o nosso esporte prejudicial à saúde ao invés de benéfico. Daí a razão de preservar esse espírito de amizade, assim teremos por mais tempo o prazer de uma onda em nossas veias.
Não sei se estou viajando em um mundo imaginário ao acreditar que o surf tenha o potencial de mudar as pessoas, fazendo-as evoluírem de forma verdadeira, coisa que tanto precisamos hoje em dia.
Mas prefiro sonhar e sair d’água feliz a lavar os problemas do mundo para lugares sagrados como as ondas!
Foto: Wavetoon
Fábulas de surf
Hoje em dia a gíria popular é o famoso "K.ô". Existem duas palavras chaves: o quase e o se. "Se o vento virasse... quase saí daquele tubo" e por aí vai. As lendas de surfistas ainda não se consagraram como as dos nossos amigos pescadores mas em compensação no quesito imaginação não estamos muito longe. Mitos vivem na memória de quem escuta aquelas histórias maravilhosas que só os surfistas sabem contar e só um ser da mesma espécie consegue captar. Histórias que ao serem contadas são automaticamente imaginadas pelo ouvinte e projetadas como um sonho. Todas cativantes, longas e interessantes demais para não acreditar.
Águas, ruas, halfs e neve profunda

A revista virtual 7 Sky faz algo raro no mundo dos esportes de prancha: oferecer a cultura do surfe, skate e snow em textos, fotos, vídeos e, sobretudo, pautas ousadas e criativas. Que outra revista oferece um texto, Higher Ground, do renomado jornalista e surfista Matt George amplificado com vídeo de uma canção feita inspirada no texto de Matt, pela belíssima voz de Heather Nova? E a canção, exclusiva do site, ainda pode ser baixada free! A preciosidade é apenas um dos links da seção Emotion, em que histórias escritas são completadas com vídeos e áudio. A 7 Sky ainda tem portfolios, arquivos e alguns dos textos, imagens e filmes mais belos e profudos da net das ondas, neve, ruas e halfs.
Wake Up

O vídeo do carioca Tiago Garcia traz, além de muito surf de alta performance, uma mensagem de preservação da natureza. Como o título sugere, "Wake Up" ("Acorde" em português) é um apelo por uma maior conscientização ecológica. As sessões são intercaladas com fatos e estatísticas que apontam a extensão da influência humana no meio ambiente. Com imagens capitadas no Tahiti, Peru, Indonésia, México, Austrália e Brasil, a ação é de primeira. Destaque para as seções de Pedro Henrique e Mineirinho, que empolgam pela alta performance. A parte de Everaldo "Pato" também não fica atrás ─ principalmente nas esquerdas sinistras do oeste australiano. Ainda tem muito surf de Trekinho, Jihad Khodr, Victor Ribas, Alejo Muniz, Thiago Camarão, Guilherme Tripa e Léo Hereda, entre outros. Os extras trazem mais Tahiti e Noronha, além de entrevistas com os protagonistas. Misturando muito surf com a promoção de uma causa nobre, "Wake Up" acerta no alvo.
Surfando a "marolinha" da crise
O que o presidente Lula chamou de marolinha vem se mostrando Pipeline 10 pés. Sim, a crise que assola o mundo capitalista chegou ao surf. Boatos de quebras de empresas, atletas de ponta sem patrocínio, eventos importantes com número pequeno de inscritos, tudo isso é reflexo da ruína do mercado financeiro no último trimestre de 2008, fazendo com que as projeções deste ano se tornem nebulosas.
No início de janeiro último, surgiram informações de que a Quiksilver estaria "quebrada". A gigante da surfwear, até então maior empresa do ramo, tinha feito uma série de aquisições que se mostraram equivocadas, estava com dificuldades em renovar impréstimos bancários para poder ter capital de giro e demitiu centenas de funcionários. Oras, se uma potência como essa passava por sérios problemas, o que seria do restante das marcas? Sua situação agora parece estar estável após a venda da DC Shoes e a renovação de contratos com bancos.
Menos mal que a Billabong, outra mega empresa, soube administrar melhor seus negócios e se mantém afastada de boatos catastróficos. Mesmo assim assinala que não pretende esbanjar. A própria decisão de aproveitar a brecha dada pela ASP e já usar em 2009 o novo formato que diminui em um dia as etapas do WCT já demonstra um certo pensamento de que a redução de custos pode ser uma tentativa de facilitar as coisas para não alterar muito o calendário de eventos do Circuito Mundial, já diminuído com a saída da Globe, em Fiji. Lembre-se, a Billabong banca quatro das dez etapas do ASP World Tour (Teahupoo, J-Bay, Mundaka e Pipeline).
O Hang Loose Pro Contest em Fernando de Noronha, foi outro caso típico dos efeitos da crise. Apenas 96 competidores estiveram no arquipélago brasileiro em fevereiro para disputar a etapa 5 estrelas, que em 2008 teve status prime. Destes 96, alguns locais ganharam vagas pela falta de surfistas para completar as 24 baterias da primeira fase e apenas 13 estrangeiros resolveram embarcar para lá, sendo que nenhum deles era atleta de ponta.
A Abril Eventos, que realiza o SuperSurf junto com a Abrasp, também corre atrás do tempo para definir mais um patrocinador fechando a cota necessária para não ter prejuízo na promoção do Circuito Brasileiro. Ninguém pode descartar a hipótese de menos uma etapa das cinco que acontecem, já que é preferível diminuir ao invés de sumir.
Os atletas, sempre o lado mais fraco, sofrem com perdas dos patrocínios. Raoni Monteiro, Léo Neves e Pedro Henrique são alguns dos que estão com os bicos de suas pranchas sem logo. Os três citados, que tem mais apelo de mídia, simplesmente não conseguem arrumar marcas para bancar suas altas despesas devido a necessidade de disputar o WQS. Com o dólar beirando os R$ 2,50, os gastos aumentaram mais de 30% inviabilizando projetos e dando uma desculpa a mais para as marcas na hora de renovar ou dispensar surfistas. Sem contar que parece existir uma idéia fixa entre os empresários de que atualmente vale mais a pena investir nos mais novos, mais baratos e com menos dor de cabeça, educando-os como profissionais e preparando uma geração mais voltada para a linha bom moço "Mineirinho", que mostra ser mais coerente com que se espera de um atleta de alto nível.
Até o calendário do WQS, com seis eventos do Brasil, me parece surreal, visto que com a expectativa do dólar alto e o poder público sendo obrigado a cercear seus custos, pelo menos 1/3 das provas que constam na lista podem ser eliminadas. Pessimismo? Não, apenas constatação. Se o cenário não melhorar, acho que a ASP South America também será uma das vítimas da tsunami devastadora do mercado financeiro.
Torço, junto com todos, para que as coisas se acertem e que o surf não fique prejudicado mais do que parece estar. É bem verdade, que em épocas de crises surgem as grandes idéias na busca para driblar os problemas da falta de grana. O que o surf precisa no momento é de pessoas responsáveis, equilibradas e que não metam os pés pelas mãos. Não adianta querer fazer projetos mirabolantes sem condições para tal. Da mesma forma que não será dispensado um atleta que a empresa irá se capitalizar. Todas as ações devem ser pensadas em conjunto e a aposta de que este mar de ressaca vai acalmar é a melhor maneira de não cometer atos impensados que apenas irão enfraquecer o mercado do surf como um todo.
Um mergulho pelas telas de Hilton Alves
O mar, de alguma forma, sempre esteve presente na vida do santista Hilton Alves, que, desde os 10 anos de idade pega onda seja de pranchinha ou de bodyboard. Em 2000, começou a dar as primeiras pinceladas e até hoje não parou. "Comecei a pintar por acaso, sozinho. Trabalhava na loja de surf do Jorge Pacelli (big rider natural do Guarujá e dupla de tow in de Haroldo Ambrósio) e nesta época eu ocupava meu tempo entre uma venda e outra desenhando e pintando. Sempre levava essas artes pra lá e colocava nas paredes. Resolvi dar uma chance a mim mesmo, e, em 2001, fui expor na Surf & Beach Show, em São Paulo, sem mesmo saber se haveria lugar para a exposição das minhas obras. Consegui o espaço e vi que poderia traçar um novo rumo na minha vida com meu talento. Desde então, não parei mais de pintar", diz.
Ondas perfeitas, tsunamis, praias, animais marinhos e, claro, o surf, são os ingredientes que dão origem a seus quadros. Segundo o artista plástico, cada pessoa prefere um tema, uma arte em si, "eu faço as mais variadas pinturas envolvendo o oceano e seus elementos", fala ele. Para dar vida a suas obras Hilton conta que utiliza diferentes tipos de tintas, materiais e técnicas como "látex, óleo, tinta automotiva, uso também pincéis, técnicas de air brush, placas de madeira, telas, entre outros. Geralmente, em tudo que vejo possibilidade de pintar, vou lá e jogo tinta", completa.
"Estou tentando ir pro Hawaii o ano que vem, se eu conseguir quero ver de perto Pipeline quebrando, colocar uma tela e um cavalete de frente para a onda e pegar a energia do local", afirma, ressaltando também que pretende continuar levando sua arte para as crianças, uma atividade à qual se dedica há algum tempo. "É uma coisa que me dá prazer, mostrar meu trabalho para os carentes e ajudar, quando possível através das vendas de minhas obras. Uma forma de inclusão social por intermédio da arte", concluiu Hilton. Além das exposições que participa, ele também vende suas obras através do site.
A prancha enquanto enigma
Só fui descobrir anos depois, mas a minha primeira prancha de surf era tão ruim quanto linda. Me lembro que dentre tantas na surf shop, foi ela, e apenas ela, que me deixou hipnotizado. Não queria saber de mais nenhuma. Eu queria muito aquela branca com borda vermelha. Com uma sugestiva pintura tradicional, aquela Hot Buttered era pra mim uma tremenda Ferrari, e muito me ajudou no primeiro ano de surf, até ficar inchada, amarelada e com uma enorme trinca no meio. O fato de ela ser o maior toco e muito parecida com uma tampa de caixão não fazia a menor diferença para mim. Eu achava-a linda. E isso bastava.
Os anos foram se passando, virei adolescente, fiz amigos surfistas, tive que pensar em pranchas, e comecei a me relacionar com shapers. E essa era a parte mais difícil da minha vida de surfista. Pegar tubo em pé? Mole. Batidão na cara? Tranqüilo. Lidar com o crowd de Pipeline? Sem problemas. Agora, entender de prancha sempre foi o mistério dos mistérios. Não um qualquer, mas o maior enigma do surf pra mim.
Nunca entendi nada disso. Invejava, secretamente, parceiros que ficavam horas discutindo sobre o futuro do rocker, por exemplo. Rocker pra mim era Mick Jagger, ora bolas. Espessuras, bicos, rabetas, edges (guitarrista do U2?), curva de fundos, melhores blocos para shapear ─ tudo grego. Por mais que eu me esforçasse, esse universo de medidas e curvaturas não entrava na minha cabeça nem por um decreto. Fiquei anos fingindo que entendia, driblando situações embaraçosas, enganando aqueles que sabiam ainda menos do que eu e pediam minha opinião sobre suas pranchas. Na real, eu tinha era vergonha de ser surfista e de não entender do assunto. Achava um mico.
Foi só outro dia que consegui tirar esse peso das costas. Li na revista que o Roger Waters, baixista e principal compositor do Pink Floyd, tinha complexo de inferioridade porque não sabia ler música e que só resolveu esse problema quando, recentemente, Eric Clapton lhe disse: “Você compôs muitas das músicas mais importantes do século XX e é um grande músico. Nunca deixe ninguém lhe dizer o contrário”. Caramba, como pode um cara como o Roger Waters, responsável pela obra-prima Dark Side of the Moon, entre tantas outras, que vendeu milhões de discos e é incensado por meio mundo, ser inseguro como músico? E se ele que é o Roger Waters pode, eu que não sou ninguém também posso com essa história de prancha.
Mas o melhor foi que, ao aceitar essa minha deficiência, eu finalmente compreendi que não tenho que entender de prancha coisíssima nenhuma. Assim como um músico não precisa saber como funciona seu instrumento. Só precisa tocar. Eu também, só preciso surfar. Quem tem que entender de prancha são os shapers. Eles é que têm a obrigação de me decifrar, entender o meu surf, a minha necessidade, e fazer a prancha certa. Eu preciso é de um shaper que me salve do embaraço de ter que ficar explicando como eu quero a prancha. Chega a ser ridículo, é um tal de: “... Ah... faz... uma solta e... rápida... e que seja... segura e não dê de borda... e que tenha boa remada... e que segure no tubo... e que... ah... faz uma vermelhinha boa e não me enche!”.
Cobertura Florianópolis Cine Action
Com filmes muito bem produzidos, o mar, a terra e o céu estiveram muito bem representados através do surf, skate e a alucinante corrida de aviões. Passaram pela tela da UFSC filmes de Bruno Bez com Lisergia e a Premiere Sincronia, -Q 21 de Gustavo Camarão, Nalu de Rafael Mellin e o auge da sessão com o lançamento do filme mais esperado: Fire, The Movie. Estrelado pelo oito vezes campeão mundial de bodyboard, Mike Stewart. O havaiano compareceu pessoalmente e presenciou a estréia do seu mais novo registro feito após 12 anos viajando pelo mundo atrás das melhores ondas. Além de muito bem produzido e dono de um formato alternativo, o filme ganha a característica de conceito, uma vez que enaltece a importância do papel do homem na preservação do planeta, além da menção a situação caótica que vive a sociedade atual.
Mais uma vez os esportes de ação e natureza, estiveram muito bem representados e apresentados ao público. Com um compromisso levado a sério e uma equipe focada, a prévia não poderia ter sido melhor e deixou um gosto de quero mais. Bom, o "mais" só no final do ano, portanto, aguardemos, pois seis dias de muita cultura, arte, cinema, esportes e natureza esperam para novamente receberem prestígio daqueles que fazem desses aspectos um estilo de vida.
O super-homem do surfe
O waterman e ultra-big rider. O homem do corpo perfeito, o modelo dos modelos de surfista em forma. O rei das ondas extra-gigantes, o cara que foi simplesmente o primeiro a dominar uma Teahupoo colossal. O inventor de brinquedos revolucionários para o surfe e outros esportes extremos. Tudo isso é Laird Hamilton e está condensado no livro "Force of Nature". Dieta alimentar, treinamento, estratégias mentais, crenças espirituais, desafios em ondas gigantes, prevenção e recuperação de lesões, sua alta inventividade como a prancha que flutua sobre as ondas (foil board) etc, está tudo lá. Laird ainda revela como dominar o medo, a adversidade e a negatividade adotando uma postura positiva que cada novo dia promete. Desconfio um pouco desse perfil parecido com livro de auto ajuda, mas como duvidar do surfista mais bem preparado da história?
História de Surfista
Mesmo com o crowd intenso nada tirava o ânimo de um casal que caminhava em direção ao pico vindos da outra ponta da praia. Num papo animado, de mãos dadas, passando um pouco de frio, cada um levava uma prancha. Provavelmente imaginando e idealizando as ondas que os esperavam. Droparem, dando o melhor de cada um e depois contarem um ao outro, com a mesma animação da primeira onda de suas vidas.
O que relativamente aconteceu: ela após um ano longe das ondas, dedicando-se aos estudos tentava voltar ao ritmo dos oceanos. Com um misto de empolgação e aflição já não via a hora de voltar aos velhos tempos de suas boas esquerdas e belas direitas. Ele um surfista nato daqueles que para por dez anos e volta como se tivesse surfado todos os dias de sua vida, seria seu professor.
E lá foram eles
ela ansiosa, ele tranquilo
ela medrosa, ele corajoso
ela empolgada, ele centrado
ela eufórica, ele decidido
ela o amando, ele a amando
ela esquecera o que é surfar, ele sonhava em reacender o surf nela.
Passando a arrebentação, uma situação muitas vezes crítica para sua "princesinha do mar", desta vez foi tranquila ao lado do mais novo mentor. A primeira onda surgindo no horizonte, ela rema, ele a apoia "rema, rema não para"
Segunda onda... "rema mais forte"
Terceira... "não esqueça: remadas lentas e profundas"
Quarta... "vai, vai... levanta!"
Quinta...
Sexta...
Após tantas tentativas a contagem já tinha sido abandonada. Não se sabe ao certo quando foi, mas enfim, aconteceu. Ela rema, seus braços já não mais acostumados a tantas remadas dão seu máximo. Ele grita "vai, não pára", ela ergue o peito, respira fundo, as pernas levantam todo o corpo, olha bem para aquela parede lisa abrindo-se para sua passagem e então dropa.
A sensação é fantástica, quase que uma "segunda primeira onda" de sua vida. Ele vibra, a felicidade é imediata, vê-la passando com um sorriso no rosto e sentir-se bem por ter feito parte disso é maravilhoso. Depois de todo o êxtase, ali mesmo, em meio a zona de arrebentação, os dois ignoram por um minuto toda a grandeza do oceano ao redor e se beijam.
Enfim,
Ele um surfista dedicado, interessado, sobre o surf ninguém sabe mais do que ele.
Ela uma menina, meio mulher, surfista de alma, na prática? Apenas em potencial.
Ninguém sabe ao certo como e nem porque. O fato é que com uma ilha mágica como cenário, estes dois se encontraram e lá iniciaram uma história. Escrevem-na como a linha de surf sendo desenhada nas ondas. Lenta e calmamente, aproveitam cada detalhe, aprendem com cada curva, crescem a cada drop e reerguem-se após cada caldo.
Hoje? Vivem seu feliz pra sempre, obrigada.
Obs.: Marcando o retorno a realização de um sonho. (é pra sempre)
Pioneiros
A baía de Santos assistiu o primeiro surfista brasileiro a levantar-se sobre uma prancha em 1934. Thomas Rittsher (foto) resolveu fabricar um daqueles estranhos barcos que descobriu na revista Popular Mechanics e imitar os sujeitos que viu nas fotos. E caminhou sobre as ondas. Bem, não foi assim tão fácil como ele mesmo contou: "Sem a mínima orientação comecei a remar nas ondas com a ponta estreita da tábua voltada para frente. Percebi, entretanto, que ela tendia a afundar, inclinando-se para frente, o que obviamente impedia de correr toda a onda. Resolvi então inverter a posição da prancha e colocar a ponta arredondada para frente, foi aí que funcionou." Depois de descobrir o que era rabeta e bico e o prazer de "andar sobre as ondas" ajudou seu amigo João Roberto Haffers, a construir uma segunda prancha. Surgiu o primeiro crowd. Mais pranchas e novos praticantes apareceram na praia. Osmar Gonçalves era um deles. E assim o surf caminhou por ali, sobre as ondas, tranqüilo e quase despercebido até o começo dos anos 60.











