KELLY EASTWOOD


"Every jackass thinks he knows what war is. Especially those who've never been in one. We like things nice and simple, good and evil, heroes and villains. There's always plenty of both. Most of the time, they are not who we think they are". (Bradley) ─ Flag of Our Fathers.


Sem nenhum motivo aparente acabo sempre associando as conquistas de Slater aos filmes do Clint Eastwood. Desde a famosa final em Huntington Beach, 1996, quando Kelly e Shane Beschen disputaram uma final que entrou para a história de forma meio vergonhosa ─ embora contundente.

Slater tinha três vitórias, Beschen ganhara duas e estavam ambos disputando o topo do ranking, sendo que Beschen tinha conseguido a tal primeira bateria perfeita da história da ASP, 30 pontos em 30 possíveis (ironicamente, o recorde anterior era do Slater), três notas 10 num mar clássico em Kirra, quando a primeira etapa do Tour ainda era da Billabong.

Diante de um público de 50 mil pessoas, Slater foi declaradamente desleal com Beschen, colocando-o numa interferência que mataria qualquer chance de reação do californiano naquela final. Foi um choque para a comunidade do surfe, que até então (e até hoje), considerava-se uma irmandade.

Slater não estava ali para fazer amigos. Estava ali para ganhar. Nada mais.

Aquela situação logo me remeteu ao meu filme predileto, Os imperdoáveis (Unforgiven, Clint Eastwood, 1992, EUA), no qual em uma das últimas cenas Gene Hackman interpreta o xerife canastrão que inferniza a vida do protagonista, vivido pelo próprio Eastwood.

Cercado, Little Bill (Hackman) tenta de todas as formas evitar o confronto com o pistoleiro Willian Munny (Clint). Finalmente dominado, Munny aponta seu rifle para a cabeça do xerife, que ainda tenta um último argumento: "Eu não mereço isso, eu estou construindo uma casa...".

Munny/Eastwood retruca sem pensar: "Merecer não tem nada com isso". E dispara.

Mas Huntington foi em 1996... 2011 é outra história. Ou não?


Prefiro usar agora a frase do outro magistral filme do Eastwood, A Conquista da Honra (Flag of Our Fathers, 2006, EUA).

Logo no início do filme, um veterano de guerra faz sua reflexão: "Qualquer idiota pensa saber o que é guerra. Especialmente aqueles que nunca estiveram em uma. Gostamos das coisas bem simples: bem e mal, heróis e vilões. Há sempre bastante de ambos. Na maior parte do tempo, eles não são quem achamos que são...".

Essa é a impressão que tenho do Slater: nunca temos certeza do que ele representa.

Claro que a primeira coisa que nos vem à cabeça é grandeza. Já vimos diversas facetas do camarada, torcemos por ele e contra ele durante todo esse tempo. Afinal 20 anos é suficiente para mudar de idéia mais de uma vez.

Ninguém domina tanto tempo um esporte, ou mesmo um simples ambiente de trabalho ou familiar sem alguma tirania. E a maior delas é provavelmente a vitória.

Slater nunca teve convicção de que alcançaria esse número formidável de vitórias e recordes no circuito ou fora dele ─ como esquecer que foi eleito 16 vezes o surfista mais popular do mundo segundo a revista Surfer ou seu triunfo (polêmico) no Eddie Aikau?

Onze títulos mundiais não é coisa que se planeje. Até Portugal, foram 70 finais e 48 vitórias, números que, sequer, fazem sentido quando comparados com outros surfistas.

Qualquer idiota julga saber o que é um circuito mundial de surfe profissional... Slater é hoje um veterano de guerra em ação.

Muito pouca gente consegue manter a lucidez sem se dobrar às armadilhas que pipocam no dia a dia de uma atmosfera como a do surfe profissional.

Os casos mais notórios de surfistas que não aguentaram o peso da idolatria são Tom Curren, Michael Peterson e, mais recentemente, Andy Irons.

Atrás de uma timidez atroz escondia-se Curren até onde foi possível. Foi um choque saber que o surfista exemplar que mais influenciou Slater no começo da carreira teve problemas com álcool.

Michael Peterson não teve a mesma sorte de Curren. Ainda mais arredio à exposição, MP enlouqueceu subitamente, alimentado pelos excessos ─ inclusive o de vitórias.

Ainda ainda está tão vivo na nossa memória que nos recusamos a pensar nele longe, mas a verdade é que Irons não teria ido embora tão prematuramente se continuasse o competidor mediano de 1999.

Uma vez que você experimenta vencer, nunca mais aceita outra coisa. De todos os riscos que Slater correu nesses 20 anos, o único que conseguiu pegá-lo foi o vício da vitória. E como todo bom viciado, Kelly Slater fará tudo pela próxima vitória.

Da mesma maneira que no futebol não existe gol feio ─ feio é não fazer gol ─, Slater continuará vencendo porque não sabe fazer outra coisa. Tentou golfe. Leva jeito mas não é o melhor. Azar do golfe, sorte do surfe.

Não poderia terminar este texto sem deixar de citar mais um trecho de filme dirigido e atuado por Clint Eastwood. Chama-se Josey Wales, O Fora da Lei (The Outlaw Josey Wales, 1976, EUA): "Lembre-se, quando tudo parecer perdido e você achar que não vai conseguir sair desta, você tem que ser mal. Digo, malvado mesmo, enlouquecidamente mal. Porque se você perder sua cabeça e desistir, você não sobrevive, nem vence. E as coisas são assim".

EVOLUÇÃO × EDUCAÇÃO



Espero estar errado, mas fiquei preocupado com uma antiga visão do futuro que, parece, chegou mesmo para ficar. Em algum momento lá atrás, nos anos 70, imaginei uma prancha com um motor embaixo, suficiente para melhorar a minha remada. Vários surfistas devem ter imaginado o mesmo. Cada um com o seu motivo. Se você surfasse regularmente um pico como Rincon, na Califórnia, depois da segunda ou terceira onda longa num dia com 4 a 6 pés, sonharia com um motorzinho desse. Caindo lá, eu já contei mais de 400 reamadas duplas, voltando do final de uma onda até o pico. Para surfar cinco ondas boas, duas mil remadas duplas (quatro mil braçadas, direita e esquerda). Em Haleiwa, no Hawaii, acima de 6 a 8 opes, a correnteza que te leva para baixo do pico é animal. Você rema a caída inteira, sem descanso. Ainda, tinha uma onda linda e mística no South Shore de Maui chamada Maalaea, apelidada de "trem de carga", que povoava a imaginação de todos por ser um pouco rápida demais para ser surfada. Num dia grande, era fácil imaginar um motorzinho no fundo da prancha pra te ajudar a fazer a onda toda.

Nada contra remar. Ao contrário ─ surfistas devem ter um dos mais desenvolvidos sistemas respiratórios e de circulação de sangue, entre as pessoas normais. Abre o apetite, desenvolve vários feixes de músculos e é uma parte importante do ritual do surf.

Quem me conhece ou acompanha os meus textos, sabe que eu sou um cara otimista e positivo. Também me considero "cabeça aberta", tentando perceber o mundo com uma visão 360 graus, mas a perspectiva de um cara sem educação ou meio truculento (ou os dois) em cima de uma prancha com um motor que proporciona uma remada três a quatro vezes mais rápida do que uma remada normal me assustou.

E é isso o que promete uma invenção patenteada recentemente sob o nome de WaveJet e prevista para entrar com tudo no mercado americano em 2012. Na época em que eu imaginei o tal motorzinho, o crowd não era tão nervoso. Dentro d'água, apenas as pranchinhas e uns poucos longboards. No meio dos anos 80, junto com o aparecimento dos bodyboards e pés de pato, o surf foi se popularizando e os longboards começaram a voltar com tudo. No início dos anos 90 apareceu o tow-in que, devagarzinho, não para de crescer. Precisando de menos vento que o windsurf, o kitesurf já disputa alguns picos e também se populariza mundo afora. Praticamente junto com o kite apareceu o stand-up paddle, ou simplesmente SUP, que experimenta um crescimento surpreendente para onde se olha.

Então, para quem começou a surfar nos anos 60 ou 70 do século XX, a primeira década do século XXI parece uma Torre de Babel aquática pronta para explodir em alguns lugares. Às vezes, quando a gente escreve, um pequeno exagero é necessário para chamar a atenção do leitor ou para deixar impresso de uma maneira mais contundente um argumento ou uma imagem. Pode até ser o meu caso aqui, mas visualize comigo ─ você perde a hora e acorda um pouquinho mais tarde do que o planejado numa manhã que prometia, desde o dia anterior, ondas de 4 a 6 pés, com séries maiores, e ótimas condições no seu pico favorito. Chega correndo na beira da água, com o cabelo desarrumado, como se tivesse caído da cama, dá uma raspadinha na parafina, nem se alonga e entra. Ainda tem pouca gente no pico. Uns dez surfistas de pranchinha, dois bodyboarders e um longboarder. Duas duplas de tow-in, que parecem ser principiantes, estão meio perto, no pico do lado. São 7 da manhã. Você faz valer a sua experiência e já pega logo duas ondas boas em meia hora, mas, quando termina a sua segunda onda, sai do lado de três surfistas entrando no canal. Olha para a areia e vê dois grupos ─ um com três surfistas de pranchinha e um longboarder se alongando e outro chegando com três surfistas carregando um remo e um SUP cada um. Você vira a cabeça para o horizonte e começa a remar, um pouco mais frenético. Você fica puto de ter ficado acordado até mais tarde na noite anterior e, num movimento masoquista, vira a cabeça de volta para a praia e olha na calçada dois carros chegando com pranchas em cima. Dá pra ver, mesmo de longe, que tem umas seis a oito pranchas, entre pranchinhas, longs e SUPs.

Mais uma dupla de tow-in vem chegando, enquanto um dos outros dois pilotos, por inexperiência, joga o seu parceiro no meio do pico onde você está. Dois caras berram, o piloto pede desculpa levantando a mão, mas tem que entrar perto da galera para resgatar o parceiro.  Você se posiciona lá fora e pensa, já meio pilhado: "A próxima que vier é minha". Olha para o horizonte em busca de uma série e nota uma brisa de vento vindo da esquerda, começando a mexer a superfície lisa do mar.

Quinze minutos depois o vento aperta, uma das duplas de tow-in vai embora, mas três kitesurfistas chegam para dividir o pico ao lado com as duas duplas que ficaram. Um deles vem lá de fora, uns 300 metros pra esquerda, entra na onda bem antes, joga o kite no vento e passa uma seção impossível com uma velocidade animal e mesmo saindo da onda uns 50 metros ao lado do pico onde você está, sem atrapalhar ninguém, aumenta a sensação de que cada onda está sendo caçada ferozmente.

Já tem uma hora que você está na água e ainda não "fez a cabeça". Olha para trás e suspira meio conformado com a visão de umas 30 pessoas boiando, umas sentadas e outras em pé, remo na mão. De repente, você olha para o canal e vê um surfista ajoelhado num longboard e dois surfistas em pé, cada um com um remo, os três entrando com os cabelos secos.  O seu olhar aperta e a testa franze em descrédito ─ eles não estão remando, mas se deslocam suavemente e silenciosamente na sua direção. Cada um tem uma pulseira escura, meio larga, com um visual futurístico e parece controlar alguma coisa com ela. Eles passam por fora e param meio longe, ainda mais longe do que os longboarders. Um deles começa a remar num balanço que nem parecia ser uma onda. Tem alguma coisa estranha, pois ele parece conseguir acompanhar a velocidade daquele balanço bem antes de virar uma onda. Nem um pranchão de 12 pés com 3 polegadas de espessura conseguiria fazer aquilo. A situação acima pode estar um pouco exagerada, mas não está muito longe de acontecer num futuro próximo.

Também, como sempre, tem o outro lado da moeda. Como é impossível voltar no tempo e frear a evolução das coisas, tem perspectivas interessantes que se abrem. Pessoas mais velhas que não conseguem remar direito serão beneficiadas. Crianças novas demais. Ou pessoas que simplesmente nunca tiveram aptidão para esforço físico poderão ter contato com as ondas, com o mar, lagoas e represas. Ainda, o desenvolvimento de motores com propulsão à bateria evitará mais queima de combustíveis fósseis.

A minha preocupação no primeiro parágrafo era baseada apenas na possível falta de educação dentro d'água que essa invenção pode proporcionar. Sem entender que, como todos dentro d'água, o proprietário de uma prancha que rema três ou quatro vezes mais deve esperar a sua vez, a presença de qualquer pessoa com uma prancha dessas no pico será um estorvo.

A PRIMEIRA VEZ DE DUKE NA AUSTRÁLIA


Manhã tranquila de uma sexta-feira, véspera do Natal de 1914, em Manly. Duke Kahanamoku chegara na Austrália no dia 14 de dezembro para uma série de exibições do seu estilo incomparável de nadar, estilo esse que tinha rendido uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Estocolmo em 1912 nos 100 metros, em cima das grandes estrelas australianas, Cecil Healy (que ficou em segundo) e Willian Longworth.

Duke foi recebido com muito entusiasmo pelo povo local que tinha, e ainda tem, enorme paixão por esportes aquáticos.

Todos os principais jornais australianos deram grande importância à visita do famoso havaiano que estava mudando a história da natação com movimentos ritmados dos seus enormes pés e mãos.

Outra coisa que deixava os australianos enlouquecidos de curiosidade era o surfe e nessa manhã do dia 24 Duke finalmente mostraria como enfrentar as ondas com uma prancha e retornar à praia majestosamente em pé, como escreveu Jack London certa vez, parecendo um Deus.

Não foi fácil.

Quando chegou na ilha continente, todos lhe pediram uma demonstração do esporte dos reis, mas Duke não tinha prancha.

Apesar da palavra surfing ser familiar aos australianos, o surfe que eles conheciam era o surfe de peito e uma forma rústica de dropar ondas com seus barcos salva-vidas.

Diversas tentativas de surfar como conhecemos hoje foram feitas, todas frustradas. Desta vez eles teriam uma chance, faltava apenas um detalhe: a prancha.

George Hudson, dono de uma madeireira em Sydney, doou uma placa sólida de uma espécie de pinho, cortou nas especificações que Kahanamoku tinha orientado e o havaiano finalizou o shape fazendo as bordas, colocando uma leve curva no bico e, reza a lenda, sutil concave na rabeta.

Estava pronta a primeira prancha feita na Austrália.

Pesava por volta de 45 quilos, quase o dobro das pranchas que Duke estava acostumado a surfar na sua casa em Waikiki.

A primeira surfada era tão aguardada por todos que foi disputada por organizadores e anfitriões de maneira feroz.  A data pedia solenidade.

Mar forte e ondas difíceis naquele dia 25, mesmo assim Duke entrou deitado e remando de uma maneira absolutamente nova, varou a arrebentação, virou a prancha e desceu algumas vezes ajoelhado para ir pegando o jeito da prancha nova.

Numa delas, para grande assombro, postou-se de pé como nas famosas fotos que rodaram o mundo no início do século.

O que mais os impressionava era a forma ágil como Duke, mesmo deitado, conseguia virar completamente sua pesada prancha quando chegava lá fora, remar junto das ondas e voltar até a praia sem esforço.

Não fazia nem 20 anos que os residentes de Manly tinham conquistado, à custa de vigorosos protestos segundo o jornal Sydney Morning Herald, o direito de ir à praia na hora que quisessem.

Uma das coisas que mais chamou atenção do Duke foi a quantidade de gente dentro d'água todos os dias em Manly, "Vocês têm mais gente dentro d'água aqui em um dia do que nós temos em Honolulu em mais de uma semana", confessou.  Isso tudo porque em 1895 um nativo de Vanuatu, Tommy Tana, resolveu dar um mergulho e voltou pra praia aproveitando a força da onda, nascia ali o surfe de peito na Austrália, ou como eles chamavam, Surf shooting.

Finalmente, no dia 10 de janeiro de 1915, Duke foi fazer sua grande demonstração na praia de Freshwater, milhares de pessoas presentes para testemunhar o grande Kahuna havaiano exibir sua arte milenar de correr ondas.

No meio da multidão, uma menina de 15 anos, Isobel Letham, estudante e nadadora do clube de Freshwater, foi a escolhida por Duke para uma rápida e improvisada aula de surfe.

Isobel, falecida em 1995, foi a primeira surfista da Austrália.

A Austrália hoje tem 13 títulos no World Tour da ASP e 700 vitórias nos circuitos mundiais, junior, mulheres, WQS e pranchão, um número assustador se comparado por exemplo ao Brasil que ainda nem chegou a 200.

Escrevo isso porque ontem, voltando de uma rápida e agradável caída na lendária North Narrabeen, parei na praia de Freshwater e fui ver a prancha do Duke de perto.

Lá estava ela, numa redoma de vidro, imponente, atemporal.

Talvez uma das pranchas mais importantes de toda a história do surfe moderno, eu estava encantado.

"Com licença, quem deixou você entrar? Essa área é limitada apenas a sócios do clube", uma voz feminina nos avisou aflita.

"Só queremos ver a prancha do Duke", ainda tentei explicar.

"Por favor, sejam rápidos".

Saí de lá indignado com o egoísmo da mocinha e com a mais absoluta prova de que a mensagem do Duke até hoje não foi assimilada nem compreendida pela maioria.

Duke compartilhou seu maior tesouro com a comunidade local lhes dando o surfe como herança.

O mínimo que podiam fazer era permitir que curiosos, como eu, ou quem quisesse conhecer um pouco da história do surfe na Austrália, pudesse admirar a pedra fundamental do surfe australiano.

A mocinha assustada que tão gentilmente nos afugentou da sala dos troféus do clube de Freshwater, devia ter orgulho e ficar até envaidecida de ter um brasileiro ali no seu pequeno clube para conhecer seu bem mais precioso.

Paulo Francis tinha razão quando escrevia que a ignorância é a maior das multinacionais.

Billabong Pipeline Masters

MAR, MEU NINHO


A música de surfe sempre foi associada aos sons estrangeiros que chegavam aos nossos ouvidos pelos sempre fascinantes filmes de surfe. Passamos por muitos ciclos diferentes, desde o jazz nos filmes do Bruce Brown, tocados com malícia e sensualidade pelo saxofone (às vezes flauta) do Bud Shank, até o hino indie do TV on the Radio.

Surfista nos anos 40 e 50 ouvia blues e jazz. Greg Noll diz que nos anos 60 se ouvia de tudo, menos aquelas musiquinhas irritantes que batizaram de surf music. Foi quando chegou a psicodelia no apagar das luzes da década e todo mundo caiu na farra.

Os anos 70 foram completamente rock n'roll! O primeiro filme de surfe brasileiro, Nas Ondas do Surfe (1978, Lívio Bruni Jr., Brasil), tinha a trilha sonora do conjunto A Cor do Som, do virtuoso guitarrista Armandinho, filho do lendário baiano e pioneiro. Osmar Macedo, do Trio Elétrico Dodô e Osmar.

Na década de 80, o new wave ditava literalmente o ritmo, enquanto nos anos 90 foi a hora do hardcore melódico entrar na roda ─ ou na moda.

Música eletrônica virou prato do dia nos 00 e ainda não saiu do iPod até hoje. Isso foi um resumo rápido, sem entrar muito nos detalhes que renderiam mais uma dúzia de textos cada.

Sou capaz de escrever sem parar sobre o London Calling, do The Clash (e Sandista!); ou do Low Life, do New Order; Caravanserai, do Santana; Moondance, do Van Morrison; Harvest, do Neil Young; Against the Grain, do Bad Religion; Burn, do Deep Purple; Meddle, do Pink Floyd. Mas não é o caso.

O que você ouve reflete muito do que você sente e ─ por que não? ─ como vai se comportar.

Samba nunca foi um gênero musical muito popular entre a surfistada, talvez pelo preconceito, ou absoluto desconhecimento da nossa música popular pela elite que pega onda.

Relacionamos o surfe muito mais com o som de um violãozinho ao estilo Jack Johnson do que com o choro da cuíca.

Aqui a porca torce o rabo. Adoro violãozinho e até aturo ouvir as baladinhas do havaiano 300 vezes em todo e qualquer canto que tenha um único e solitário surfista atrás do balcão, mas quem fala da nossa relação com o mar como pouquíssimos é Paulinho da Viola.

Ele é nosso poeta Greg Noll, o Curren do samba. Vejam que letra formidável que ele comete:

"Lobo do mar, timoneiro, / Me leve pro sol / Quero outro verão / Não quero mar de marola / Das praias da moda / Na rebentação / Quero mar alto, o mar grande..."

Substitua "timoneiro" por surfista. Perdemos a rima, ganhamos significado e identificação. A alma do homem do mar está lá, a intimidade com a situação, a solidão típica de quem se dedica com paixão a sua atividade. E ele continua:

"Prefiro ir à deriva / Me deixe que eu siga / Em qualquer direção / Se eu sou de um rio marinho / O mar é meu ninho / Meu leito e meu chão"

Pega onda, esse cara? Pode até não pegar, mas tem coração de surfista ─ ou temos nós, todos, uma alma de sambista.

Foi Paulinho da Viola quem compôs a sentença mais emblemática que já escreveram sobre surfe: "Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar".

Somos todos navegados, melhor dizendo, surfados, pelo mar. Paulinho é pescador e sabe que nossas atividades, surfe e pesca, são cercadas de mistério e imprevisibilidade, por mais que tentemos não somos donos do destino, no mar como na vida.

Você escolhe se quer cair num mar enorme e sabe dos riscos que corre, mas se nunca enfrentá-los, como vai descobrir se é capaz ou não?

Nos fascinamos com o simples fato de que um dia na praia pode trazer a mais suprema felicidade do nada. Ou, como diz Paulinho da Viola:

"Deus bem sabe o que faz
A onda que me carrega
Ela mesma que me traz"

Outro gigante da canção universal que escreveu como ninguém sobre o homem e o mar, Dorival Caymmi, avisa: "Quem vem pra beira do mar, nunca mais quer voltar".

CULTURA AMEAÇADA

Longboard é sinônimo de história, sendo a modalidade do surf que melhor representa o desprendimento e alegria que caracterizou os primórdios do esporte. Também é sinônimo de outros valores essenciais, como respeito, união e estilo, sempre baseados em classe e harmonia.

Isso tudo ainda é evidente, mas se o tempo pode ser benéfico para algumas coisas, também pode abrir um buraco enorme numa cultura. A massificação do longboard anda a passos largos, principalmente pela adesão da molecada e não há dúvidas que isso tem um lado positivo. Mas seria bom se os novos praticantes enxergassem os aspectos fundamentais de uma cultura que envolve atitudes singelas, mas extremamente expressivas. Sempre comento que longboard é surf, um esporte radical por natureza, mas para que sua raiz não se perca no meio de tanta pancada, é preciso muita atenção da nova geração. Digo atenção deles, porque não falta boa vontade aos antigos em procurar manter viva a elegância de tantos anos e passar isso adiante.

O maior problema talvez seja a forma como se vem surfando atualmente. Pranchas com muito rocker, finas e estreitas demais, contribuem para um surf de base aberta, obrigando o cara a matar milhares de baratas para conseguir alguma manobra na rabeta. A fluidez, estabilidade e harmonia ficam comprometidas e o noseriding vira aquele Deus nos acuda. É um tal de se rastejar até o bico, que dá nojo de ver. Felizmente tem uns moleques que são mestres quando o assunto é prancha grande. Os californianos são os que melhor parecem assimilar a história, embora pequem na camaradagem, muitas vezes achando que só eles sabem o que é surf de longboard. Mas que eles entendem do assunto, ninguém pode negar. Alex Knost, Joe Aaron e Tommy Witt são exemplos de garotos que conseguem absorver todos os fundamentos técnicos e históricos. Seguindo a mesma linha, aqui no Brasil, Marcelo Carbone e Alexandre Wholters são dois filhos natos do longboard, com vantagem de serem humildes e amigáveis, provando para seus contemporâneos gringos que surf decente também se faz fora d'água.

A falta de respeito com a história acaba gerando a descaracterização da cultura, colocando-a sob ameaça de extinção. Isso tudo é fomentado pela egotrip de alguns surfistas quando começam a deslanchar em cima dos seus pranchões. Muito marmanjo que andava morto no surf por não conseguir fluir com uma 6 pés, quando pega uma 9 pés e consegue alguma coisa, acha que está no céu e nem se liga se está fazendo surf de longboard ou simplesmente se está surfando com uma pranchinha alongada. Desde que ele mantenha o ego controlado, não tem nada demais. O pior é o moleque que era gordinho e desengonçado e por isso teve que aprender a surfar com um longboard. Passa um tempo e ele vai pegando o jeito, até começar a competir. Aí com 17/18 anos pensa que sabe tudo e sai ignorando a história e seus personagens, só porque ganhou umas bateriazinhas aqui, outras ali, fez umas viagens para o Hawaii que o pai bancou, mas nunca surfou Pipe ou Sunset de verdade. Isso soa como um escracho à alma de qualquer surfista de bom senso, principalmente para quem respeita a cultura do longboard.

Resgatar a história, unir-se em torno dessa paixão e divertir-se com classe é a melhor forma de manter viva nossa cultura, que abomina atitudes contrárias a essas. Isso é longboard, o que se tem visto por aí é balela!

A MELHOR MANEIRA DE ENFRENTAR O SOL


PARA QUEM COSTUMA FICAR DUAS OU TRÊS HORAS NO OUTSIDE DEBAIXO DO SOL, UMA BOA PROTEÇÃO DE PELE É INEVITÁVEL. FALAMOS COM PRÓS E ESPECIALISTAS PARA SABER O QUE USAR


Para fazer o que mais gosta, um surfista precisa apenas de uma prancha, uma bermuda e o mínimo de talento, certo? Errado. Um bom protetor solar é peça importantíssima na mala de uma surf trip.

A dermatologista Ligia Kogos indica os protetores à prova d’água, mas ressalta que os que contém zinco em sua fórmula são mais eficazes. “O óxido de zinco é um filtro físico. Ele é uma partícula que reflete a luz e que não arde os olhos. O zinco também tem uma ação calmante, que é bom para quem já está com a pele vermelha e irritada”.

Entre os surfistas, os protetores preferidos são os de bastão. “Uso protetor solar Vertra, aquele stick que é mais fácil de usar”, conta Jessé Mendes, surfista profissional de 22 anos. O fabricante do Vertra garante que o protetor tem proteção ultra-resistente à água e não precisa ser passado mais de uma vez ao dia.

A velha guarda segue outro caminho: “Sempre usei Hipoglós, sou dessa época”, afirma Fabio Gouveia. Apesar de não ser oficialmente um filtro solar, o Hipoglós é eficaz na proteção contra o sol. Além de conter óxido de zinco em sua fórmula, a pomada forma uma camada espessa sobre a pele que repele o sol. Porém a doutora Ligia lembra: “Mesmo passando o Hipoglós, é interessante passar também um filtro solar por baixo para fazer mais efeito”.

Uma opção híbrida entre o Hipoglós e os protetores, é o americano Zinka, um protetor à prova d’água que contém zinco em sua fórmula e também é vendido em bastões. Depois que estiver com o rosto bem protegido, não se esqueça de proteger o corpo. As lycras feitas com tecidos que protegem dos raios UV são ideais.